2005/08/26

Mensageiros de Deus?

Ou emissários do diabo?
Aqui por esta zona costumam andar umas pessoas, a maioria já bem “maduras”, aos pares, a abordar que passa...
Assim de repente lembro-me de, pelo menos, três pares, sendo dois deles compostos por mulheres e um terceiro misto.
Ás vezes tocam às campainhas, perguntam os nomes, apontam num caderninho, prometem (ou melhor: ameaçam) voltar, se argumentamos não ter tempo para os ouvir. Insistem na superior importância de serem escutados e nas enormes vantagens que resultam, dessa penitência (de os ouvir), para quem os ouve. Dizem eles que trazem “boas notícias”, têm explicações para tudo, querem indicar-nos um “caminho seguro”, salvar-nos da maldade do Mundo.
Coitados! Apetece dizer: “perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que dizem, nem conhecem as pérfidas implicações da sua função”.
Eu acho que nunca fiz mal a ninguém, bem pelo contrário e, por isso, escuso-me a tais penitências. Mas, por uma questão de educação e de civismo, por uma questão de respeito para com as pessoas, abstenho-me, via de regra, de dizer o que realmente penso do conteúdo dessas mensagens.
Como em tudo o resto, posso garantir que já me dispus a ouvir e analisar “a mensagem”, para avaliar se contém alguma coisa válida e útil para o Mundo e para o bem estar da humanidade, para o progresso, ou para que as pessoas contribuam para melhorar a sociedade e resolver os muitos problemas que nos assolam.
Não! Nada disso! Esta gente cretina e má (perversa), vai ao ponto de explorar e acicatar a desconfiança que se instalou (e que é instigada) nas pessoas, acerca dos seus semelhantes e da sociedade. Para eles, “não se pode confiar nos homens”, por isso resta-nos esperar a vinda do salvador…
Como já estão a imaginar, para uma pessoa como eu, que acho que (sei, por saber de experiência feito) nada, na sociedade, se resolve se não forem as pessoas a resolver, este tipo de conversa, só pode ser considerada premeditadamente perniciosa e prejudicial à luta por um mundo melhor.
Como disse, costumo me esquivar a tais conversas, quer por já saber o seu conteúdo (perverso), quer por se tratar de pessoas de baixo nível de instrução, de baixo nível intelectual, com conversa enfadonha e primária, com quem não se pode argumentar, porque é perda de tempo.
Sucede que, um destes dias, me apanharam “à má fila” e, por causa do meu civismo e delicadeza, foi tanta a insistência que me forçou a responder adequadamente. Como seria inevitável, acabou por ser desagradável para ambas as partes… Não foi culpa minha, eu juro! Eu até nem queria! Mas como respondi, delicadamente, que não tinha disponibilidade, a insistência foi no que deu; porque palavra puxa palavra, que é rápido, que não demoram, que são coisas “muito importantes”, que nós temos que parar para pensar (como se gente assim soubesse pensar; só repetem umas quantas ideias estúpidas que lhes impingiram como boas), etc., etc., etc.
Ao intróito inicial de que o Mundo está muito mal e, por isso, não se pode confiar nos homens… respondi que, por isso mesmo, por o mundo estar tão mal, só se pode confiar nos homens, porque se Deus quisesse fazer alguma coisa pelo Mundo já teria feito. Aí a conversa mudou completamente e passaram a me atirar à cara com a enorme quantidade de coisas que “Deus dá”, como por exemplo, entre elas, o ar que respiramos.
Atalhei dizendo que o ar que respiramos está cada vez pior, devido às patifarias de uns quantos que governam o Mundo (coisa que, aliás, Deus nem devia consentir), que é preciso fazer alguma coisa para travar essas pessoas malditas, que só os cidadãos o podem fazer, até porque Deus não se mete nessas coisas, como já está sobejamente demonstrado, até por ser Deus e por respeito para com os homens.
Aí uma das senhoras disse-me que ela tinha pavor de praticar maus actos, por causa do castigo de Deus.
Coitada da senhora, deve ter ficado indignadíssima quando eu lhe respondi, em ar de censura, que isso era um absurdo, que não concebia a ideia de alguém precisar dum prémio ou dum castigo para ser civilizado para com os outros, que devia bastar ser gente, pertencer à raça humana para se proceder de forma digna, em tudo…
Ainda falei da enorme quantidade de patifarias infames cometidas pelos governantes americanos, ao mesmo tempo que invocam Deus e enquanto destroem o mundo. Deus não devia consentir, se se metesse nessas coisas, nas coisas dos homens… Dei como exemplo os atentados terroristas que, ao que tudo indica, são praticados pelos próprios responsáveis americanos, usados como pretexto para impor ao Mundo guerras e perseguições infames. Acrescentei que isso sim, devia ser dito às pessoas, para que ganhem consciência e actuem em conformidade, se indignem, manifestem a sua revolta e isso possa acabar.
Espantou-me a passividade, absurda, com que me ouviram, sobretudo tratando-se de coisas tão alarmantes. Não é comum! Quando falo destas coisas as pessoas costumam se escandalizar e até, às vezes, contra-argumentar.
Mas o mais espantoso foi a resposta, assim mesmo: “O Mundo é governado pelo demónio” e, quanto à minha luta contra todas estas infâmias, “você não se pode imiscuir nessa luta, porque faz parte de ….???? (um palavrão qualquer que eu já ouvi, creio que em filmes sobre fenómenos extra-sensoriais), só Deus tem poder e “legitimidade” para vencer o mal”.
Apenas exclamei: “que ideia absurda!”, enquanto que a senhora mais activa terminava rapidamente a conversa e se despedia, ainda assim reafirmando que “trazem boas notícias”, para quem quer escutar… Assim como um disco rachado…
Fiquei a pensar na anedota da mulherzinha, muito religiosa, que se afogava enquanto suplicava a Deus que a salvasse, mas recusava todas as ajudas das pessoas. Quando chegou ao céu (eu acho que uma pessoa assim devia ir para o inferno) e questionou Deus acerca de porque não a tinha socorrido, recebeu como resposta: “então minha filha, mandei-te um nadador salvador e tu recusaste a ajuda, depois um homem com uma prancha e voltaste a recusar; a seguir mandei-te um barco, também não quiseste… que mais querias?”
Até a minha avozinha dizia, a propósito, que “Deus não é mais obrigado do que a mostrar as coisas”… Só que não há maior cego do que o que não quer ver, por mais que “Deus mostre” e esta gente não quer ver o que seja que contradiga as suas patranhas de gente estúpida, covarde e incapaz.
Mas o que me indignou, com estas “missionárias” e com o próprio Deus, foi o facto de as pessoas (os poderosos) poderem representar o diabo, para governarem o Mundo, fazendo o mal e destruindo-o; mas nós não podemos lutar do lado do bem, (Deus não se fazer representar pelas pessoas)… garantindo, assim, a vitória do mal.
Comigo NUNCA!
Não pudemos negar que, na perpétua luta entre o bem e o mal, se associa (sempre se associou) à ideia de Deus a luta pelo bem, a favor das pessoas, da paz, etc; enquanto que ao mal, ao que é pérfido e provoca sofrimento, se associa a ideia do diabo (obra do diabo, o diabo à solta). Nesse contexto, enquanto pessoas que pregam que se deve deixar o diabo à solta, sem luta e sem oposição, esperando ajuda de Deus (que nunca virá), mas rejeitando tudo o que Deus mostre ou inspire, às pessoas, quanto à sua participação nessa luta, estas pessoas beneficiam, objectivamente, o mal e, por isso, são autênticos acólitos do DIABO; não mensageiros de Deus, que deixam abandonado e sem auxílio, para que o bem possa ser derrotado…
Aliás, se toda esta gente estivesse do lado certo, certamente que o próprio Mundo não estaria tão mal…
Fiquei a pensar se não será também por influência de gente assim que se vê tanta passividade de muitas pessoas, em relação aos problemas da sociedade…
E foi assim que eu compreendi a aversão que todos os democratas, as pessoas que se preocupam com a resolução dos problemas do Mundo têm às religiões e aos que, a coberto de divulgar as suas crenças, são verdadeiros acólitos do diabo.
Até agora eu achava que (superados os problemas do poder inquisitorial da igreja) o facto de as pessoas acreditarem, ou não, num Deus, não devia ser problema. Mas isto? Sem dúvida que é um problema, que só contribui para agravar os problemas da sociedade…